Quando confrontados com tais cifras, cidadãos de países afluentes as tomam por funestas ou até trágicas, e lamentam a ausência do cumprimento de certos direitos humanos básicos. Muitos admitem que poderiam (e alguns até que deveriam) fazer mais para ajudar. Mas a reação apropriada, para Pogge, seria de verdadeiro terror, frente ao reconhecimento de que sustentam ativamente esta catástrofe. “Devemos parar de pensar a respeito da pobreza mundial em termos de ajudar os pobres”.[1] Para o terceiro desafio de Pogge, endereçado aos aderentes de concepções conseqüencialistas e contratualistas de justiça, retornamos à tese empírica (1a): cidadãos de sociedades afluentes preservam suas grandes vantagens econômicas ao impor, dar forma e manter a uma ordem econômica global injusta, em vista das privações extraordinárias e previsíveis que esta reproduz.

Esta ordem institucional está implicada na reprodução de desigualdade radical e que há uma alternativa institucional fatível sob a qual tal pobreza severa e extensiva não persistiria. A desigualdade radical não pode ser traçada a fatores extra-sociais (tais como desvantagens genéticas ou desastres naturais) que, como tais, afetam diferentes seres humanos diferencialmente.[2]

A tese empírica (1a) de Pogge, à luz da terminologia que temos adotado, propõe que a pobreza global não é um problema de prevenção do mal (TPM), como propunha Singer, mas de compensação do mal (TCM). Todavia, distintamente do modelo clássico de justiça corretiva, o modelo de Pogge não prescreve uma compensação ex post, mas simultânea. A razão para essa compensação é que cidadãos de sociedades afluentes impõem uma ordem econômica global que viola, ou não cumpre certos direitos humanos positivos. A idéia principal é que aqueles que lucram com essa ordem (e/ou aqueles que a dão forma e mantém) devem compensar aqueles que sofrem com essa ordem por suas perdas.

O terceiro desafio de Pogge é empiricamente o mais exigente, e requer que três reclamações envolvidas neste sejam substanciadas: que (1) acordos institucionais globais estão causalmente implicados na reprodução de pobreza severa; que (2) governos de países afluentes portam responsabilidade primária por esses acordos institucionais globais e podem prever seus efeitos prejudiciais; e que (3) muitos cidadãos desses países afluentes portam responsabilidade pelos acordos institucionais que seus governos têm negociado em seus nomes. Os debates empíricos comuns dizem respeito a como países em desenvolvimento deveriam planejar suas instituições e políticas econômicas de modo a reduzir a pobreza dentro dos limites de suas fronteiras.

Com referência às causas sociais da persistência da pobreza, duas escolas de pensamento se destacam. Economistas libertários com orientação de direita – relacionados a assim chamada Escola de Chicago – argumentam que a pobreza persiste por países pobres não seguirem o exemplo do Japão, dos tigres asiáticos (Hong Kong, Taiwan, Singapura e Coréia do Sul) e, recentemente, da China. As histórias de sucesso econômico desses países, segundo libertários, mostram que a melhor maneira de erradicar miséria é crescimento econômico, e a melhor maneira de atingir crescimento econômico é optar por um mercado livre e aberto com o mínimo de impostos e regulamentos. Economistas com orientação de esquerda, por outro lado, priorizam investimentos extensivos em necessidades básicas. Amartya Sen, o mais proeminente defensor de tal ponto de vista, ilustra suas teses com o estado indiano de Kerala que possui índices melhores em educação, saúde e infra-estrutura do que estados mais afluentes do mesmo país.

Colocando tais debates à parte, todavia, Pogge se concentra no que é ignorado por ambas as escolas de pensamento, a saber, o papel que a ordem institucional global possui na persistência da pobreza severa.

Ambas as escolas enfatizam que as causas sociais da pobreza e, portanto, a chave para sua erradicação, jazem nos próprios países pobres. A pobreza persiste porque os países pobres possuem más instituições econômicas e más políticas econômicas, que são geralmente devidas à incompetência e corrupção de seus líderes políticos e oficiais públicos. Esta é a figura que tanto economistas de direita quanto esquerda apresentam, e esta é a visão que políticos e o público geral aceitam e repetem.[3]

Essa visão popular está perfeitamente correta no que afirma, mas é de qualquer modo profundamente enganadora, pois retrata as instituições, políticas e elites corruptas prevalecentes nos países em desenvolvimento como um fato exógeno, isto é, como um fato que explica, mas que não precisa de explicação. Considere-se, por exemplo, John Rawls:

[A]s causas da riqueza de um povo e das formas que esta toma jazem em sua cultura política e nas tradições religiosa, filosófica e moral que sustentam a estrutura básica das suas instituições políticas e sociais, bem como na diligência e talentos cooperativos dos seus membros, todos sustentados por suas virtudes políticas. … [A] cultura política de uma sociedade carregada [burdened] é da mais alta importância… A política de população de um país é também crucial.[4]

Para Rawls, portanto, quando sociedades falham em prosperar, o problema é normalmente a natureza da cultura política pública e das tradições que subjazem às instituições de um país. “Os grandes males sociais em sociedades pobres são provavelmente governo opressivo e elites corruptas”.[5] Pogge denomina essa posição de ‘nacionalismo explanatório[6]. Para ele, as passagens citadas – instâncias claras de TPPD – levam diretamente a um importante erro moral que precisa ser flagrado: a tese da inocência. Uma explicação da pobreza global não deve meramente aduzir a prevalência de más políticas e elites corruptas nos países em desenvolvimento, mas deve também fornecer uma explicação para essa prevalência.

Referências
  • Thomas Pogge, “The Influence of the Global Order on the Prospects for Genuine Democracy in the Developing Countries”, Daniele Archibugi & Mathias Koenig-Archibugi (eds.), Debating cosmopolitics (London: Verso, 2003).
  • John Rawls, The Law of Peoples (Cambridge: Harvard University Press, 1999).

[1] Pogge (2002, 23). Cf. Pogge (2004).

[2] Pogge (2002, 199).

[3] Pogge (2003, 121).

[4] Rawls (1999, 108).

[5] Rawls (1999, 77).

[6] Pogge (2002, 139ff).



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