Deveres samaritanos
Coloquemos agora em perspectiva o tratamento do problema como proposto por Singer. Sua estratégia é perguntar como a pobreza global – tomada como um problema moral sério – pode ser reduzida. Isso não leva à questão de quem causou e causa tal pobreza, se for possível determinar quem ou o que causou e causa, mas à questão de quem pode fazer algo para revertê-la. Singer (e, depois dele, Peter Unger[1]), em uma veia utilitarista, enfatizam a idéia de capacidade: cada indivíduo que possui a capacidade de salvar os outros dos problemas que temos tratado são obrigados a fazê-lo, não importa como ou por quem os problemas foram causados. Somos levados à lembrança da parábola do Bom Samaritano contada por Jesus no Evangelho de Lucas:
Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão; aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele; partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar.
O paralelo é claro: o assistente Samaritano não estava previamente envolvido no mal que foi feito ao homem que salva. Apesar de o homem injuriado ter sido assaltado por outrem, a saber, os salteadores que o espancam, o Samaritano o provê assistência. A posição de Singer e Unger é consistente com a intuição de que o Samaritano possui um dever moral de assisti-lo: o cumprimento de nossos deveres não consiste apenas em abstermo-nos de causar mau aos outros positivamente, mas também implica que devermos assistir, se formos capazes disso. Para isso, é preciso aceitar que uma omissão de assistência tem que ser considerada contribuir causalmente ao dano sofrido pela pessoa que não é assistida. Denominemos isso tese do dano por omissão (TDO).
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